terça-feira, 5 de junho de 2012


RETRATOS INGLESES
postado por O Santo Ofício
junho 4, 2012
Por Marcelo Alves Dias de Souza
Charles Dickens (1812-1870) tem sido assunto frequente nos meus escritos, seja em citações periféricas, como em “Os esnobes do Direito”, seja em crônicas inteiramente dedicadas a ele, como são os casos de “Charles Dickens e o Direito” e “Dickens é preciso?”. Nada mais justo, acredito, para com o mais afamado dos romancistas ingleses, o autor de “The Pickwick Papers”, “Oliver Twist”, “Nicholas Nickleby”, “The Old Curiosity Shop”, “Christmas Carol”, “David Copperfield”, “Bleak House”, “Hard Times”, “Little Dorrit”, “A tale of Two Cities” e “Great Expectations”, para mencionar apenas os seus mais badalados títulos.

Desta feita, decidi homenagear o grande romancista – nascido em Portsmouth, mas que, ainda garoto, se mudou para Londres – no título do meu novo livro: “Retratos ingleses”. Para quem não sabe, Dickens é autor de um livro chamado, na tradução brasileira da Editora Record (2003), “Retratos londrinos” (no original em inglês, “Sketches by Boz”). E assim como os meus “Retratos”, os “Retratos” de Dickens são, também, uma coletânea de artigos/crônicas, com a diferença, claro, de serem obra de um gênio.

E se homenageio o criador de “Oliver Twist” e “David Copperfield”, o faço não só pela qualidade da sua obra, mas também porque seus retratos/crônicas londrinos têm sido para mim um motivo de inspiração, para não dizer, às vezes, de imitação. Se, em Londres, “As carruagens de aluguel e suas estações” da era vitoriana já não são mais vistas, “O amanhecer nas ruas”, na grande capital do Reino, ainda encanta um visitante como eu. “O rio” de Dickens é o mesmo Tâmisa por onde, margeando suas águas, quase todos os dias caminho. Outro dia, seguindo um de seus retratos/crônicas, fui visitar “O Scotland Yard”, não o prédio atual da famosa polícia, mas a rua onde outrora essa força pública estava sediada. E mais ao norte dessa via, fui xeretar o animado comércio e confirmei muitas das impressões de Dickens “Sobre lojas e lojistas”. Se não frequento os “Jantares públicos” dos tempos de Dickens, procuro, quando posso, ir à busca dos “Divertimentos londrinos” dos seus “Retratos” nas tardes e noites da Bloomsbury, da Holborn e da Covent Garden de minha predileção.

Mas Dickens não tem sido apenas um companheiro de passeios e divertimentos. Também nas minhas aventuras jurídicas, como deixei entender em “Charles Dickens e o Direito” e “Dickens é preciso?”, o autor de “Christmas Carol” e “Bleak House” tem sido um bom guia. Aliás, foi na primeira dessas duas crônicas que registrei haver tido Dickens considerável formação jurídica, tendo trabalhado, segundo seus biógrafos, como ajudante em escritório de advocacia, clerck (no direito inglês, uma espécie de escrivão) e repórter judiciário. Em “Retratos londrinos”, a crônica “Doctor’s Commons” é um exemplo perfeito da mais fina ironia jurídica. O título é uma referência à antiga faculdade de Direito e, dos séculos XVI ao XIX, sede das cortes civis de Londres que, segundo destila Dickens, “tornou-se famosa como o lugar onde se tira a licença para que casais apaixonados possam se casar e onde todas as infidelidades terminam em divórcio”. E nela Dickens nos leva para passear pelo mundo do direito de família e das sucessões. Damos de cara com manifestações de bem-querer e, sobretudo, de desafeto. Com ciúmes e vinganças, com o amor desafiando e o ódio sobrevivendo até mesmo ao espetáculo da morte. Ali, poucos são os exemplos da nobreza da alma; muitos, os retratos das piores paixões da natureza humana. Já na crônica “A paciente do hospital”, Dickens visita o mundo do direito criminal. Ele nos conta o caso de uma “Maria de Penha” vitoriana que, no leito de morte, após duramente espancada pelo amante, por amor, deixa de reconhecê-lo, perante o diligente magistrado, como seu criminoso agressor. E, por incrível que pareça, tudo isso é relatado suavemente – às vezes, divertidamente, pode-se dizer – na pena do grande cronista.

Bom, para mim, os poéticos “Retratos” de Dickens têm sido um guia completo da capital do Reino. Mas já ficarei satisfeito se os meus “Retratos” forem para você, caro leitor, um bom começo de jornada, seja para conhecer um pouco do direito inglês, seja como motivo para frequentar os sebos da grande cidade em busca de outros Dickens ou de Shakespeare, de Shaw ou de Chesterton, de Conan Doyle ou de Ian Fleming, de Agatha Christie ou de Hitchcock. Nem que seja apenas para uma simples caminhada pela Londres de minha afeição.

Sim, já ia esquecendo: farei o lançamento dos meus “Retratos ingleses” no Solar Bela Vista, no dia 06 de junho de 2012 (a próxima quarta-feira), às 19 horas. Você está convidado.
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.Marcelo Alves Dias de Souza é Procurador Regional da República, Mestre em Direito pela PUC/SP e Doutorando em Direito pelo King’s College London – KCL



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