sábado, 12 de julho de 2014

Assunto: Lucidez

 
 
“O general Golbery do Couto e Silva dizia que dentro de cada vitória há uma derrota. E que dentro de cada derrota há outra derrota. O dito do mago da ditadura não era para ser levado a sério, apesar de ter o seu sal de verdade. Tomar de sete a um é chato. Mas não é uma tragédia. Outras derrotas virão, quem sabe até maiores. É do jogo.
O futebol é o mais internacional dos esportes, centenas de milhões de pessoas no mundo todo torcem, sofrem e discutem interminavelmente partidas e campeonatos. Ele pertence ao domínio do entretenimento, existe para divertir, no seu âmago está o prazer. Na Copa do Mundo, boa parte da espécie humana acompanha os jogos, dando origem a uma narrativa global que envolve bilhões de espectadores. Há uma tensão planetária que não redunda em violência. É uma beleza.
Tudo isso em nada altera a realidade material da vida e o rumo da história. O juiz apita o final do jogo, as luzes se apagam e em poucos dias tudo volta ao que era dantes na arena de Abrantes. Salvo para os diretamente envolvidos, os jogadores. Pagos a peso de ouro, eles são profissionais no topo da carreira, astros adulados em centenas de países. Na Copa, pelo que se percebeu, a maioria deles se comportou a contento. Trabalharam com diligência e seriedade, deram o melhor de si. Com emoção, também — vibrando na vitória e sofrendo na derrota.
Talvez porque se preste mais atenção nela, a seleção destoou um pouco. Havia uma estranha infantilização do time. Adotou-se o termo “família” para designá-lo, e nela os jogadores faziam o papel de filhos. Adultos experientes, versados em contratos milionários, com casa, família e trabalho no exterior, entravam em campo numa ordem unida de quadra de escola, com a mão no ombro do amiguinho da frente. O técnico era chamado de “professor” e se comportava como tal. Cantavam o hino nacional com o civismo de meninos. Usavam bonés virados para o lado como se tivessem 14 anos.
O misticismo também os apartava da maioria dos jogadores de outros países. Fazia-se o sinal da cruz para entrar e sair do campo. Beijavam-se medalhinhas no pescoço. Prostrado de joelhos e com os olhos fechados, quem fazia gol apontava para o céu e agradecia a graça recebida. Promoviam-se rezas coletivas. Repetiu-se várias vezes que era preciso ter fé. Thiago Silva juntou crença e criancice e referiu-se a “papai do céu” numa entrevista. Quando Neymar teve de se afastar do torneio, passou-se a falar com insistência em milagre.
Nada disso é novo, exceto os excessos. No Brasil, o fervor futebolístico tem ânimo religioso. Já na Copa de 1970, Jairzinho marcou um gol na final contra a Itália, se ajoelhou e fez o sinal da cruz. Salvo engano, foi o único lance religioso do time nacional. Os tempos eram outros e a reação ao gesto foi diferente da adesão de agora. Os tricampeões responderam depois da partida a perguntas de personalidades variadas. Na enquete, publicada no Brasil pela revista “Manchete”, Pasolini perguntou a Jairzinho se não achava que o seu gesto poderia ser “apropriado pelos reacionários”.
A definição de um processo é determinada pelo seu desenlace. Se a seleção fosse hexacampeã, sua infantilização seria considerada um lance de gênio, a estratégia definitiva da autoajuda. Ficaria provado que a fé move montanhas e marca gols. Talvez até papai do céu desse a volta olímpica no Maracanã.
Mas não houve milagre. A Alemanha jogou melhor e a seleção desmoronou. Os jogadores se comportaram em campo como vinham fazendo — como crianças, parte delas mimadas. Ainda bem que cirurgiões ou pilotos de avião não agem como eles nas adversidades.
A seleção não representa o Brasil. Se o Congresso e os políticos, que são eleitos, não o representam, por que uma equipe de jogadores poderia fazê-lo? O raciocínio é absoluto e vale quando invertido: também nas grandes vitórias o time brasileiro não encarnava, nem virá a encarnar, a nação. Essa história de que a seleção é a pátria de chuteiras é balela, uma metáfora mal-ajambrada.
A derrota de quarta-feira — a hecatombe, a catástrofe, o vexame, a vergonha, o massacre, qualquer que seja a designação estentórea que se lhe dê — é uma humilhação apenas para os que nela estavam implicados. Sendo o futebol o que é, não parece razoável esperar que ela produza grandes modificações na organização do esporte. Alguns nomes serão trocados e, como eles mesmos dizem, bola pra frente.
Para os outros, para nós, restarão as palavras. O espantoso jogo contra a Alemanha será analisado, interpretado, discutido e dissecado como um cadáver. Ao contrário do piripaque de Ronaldo na final da Copa de 1998, não haverá o que revelar do episódio. A queda se deu à vista de todos. Mas é com palavras que se fazem os mitos.”
Anônimo, porém lúcido.
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Enviado pelo Amigo Roberto (Bob) Furtado

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