quarta-feira, 20 de abril de 2016


Meia-transa
 
Geraldo Duarte*

Dona Néia, longeva parteira, depois de apalpar a grávida, emitiu pensar: “Barrigão de caber gêmeos. Chame doutor Lourival. Não vou desembuchar, só ajudar”.
1951. Tempo longe de saber-se, o contido na barriga de mulher prenhe. Distante da tecnologia avançada da ultrassonografia.
Prognóstico equivocado. Único nascituro. Menino pesando cinco quilos e meio e medindo cinquenta e três centímetros. Um “pequeno gigante” jactava-se o feliz pai ao riso da orgulhosa mãe.
A Gazeta de Notícias, na coluna de efemérides, publicou: “Dia 18, sábado, o lar do senhor Fulano e de sua digna consorte, senhora Sicrana, recebeu a chegada da cegonha. Trouxe para o casal o robusto e gracioso garoto que, na pia batismal, ganhará o nome de Atlas.”.
Com poucos meses, os genitores, inscreveram a criança no concurso nacional Bebê Johnson’s, que escolhia, anualmente, a criancinha de maior beleza do País.
Aos quinze anos, Atlas chegou à altura de um metro e meio e peso de cinquenta e quatro quilos. Não mais cresceu, nem engordou. E, assim, continuou após a maioridade.
Seu biótipo contrastava totalmente com o do deus mitológico grego, filho do titã Jápeto e da oceânide Ásia, condenado por Zeus a sustentar os céus eternamente. Quando o chamavam, o martírio dominava-o.
Decidiu solucionar o problema. Buscou na Justiça a retificação nominal. João, o novo nome. Mudou-se de cidade. Teria outra vida, completamente liberto do infeliz Atlas.
A mudança demonstrou-se pior. No emprego conseguido, encontrou um “Castorina do Aracati” que o apelidou de Meia-f... ou, para melhor compreensão sua, caro ledor, o relativo à meia-transa.


 

                                  *Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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